sábado, 4 de outubro de 2008

COMO HUMANOS, PARTE DA DIVERSIDADE - contando da Feira Jovem

Bom dia, boa tarde, boa noite!

Depois de uma Feira do Jovem muito legal com o nosso Bate-papo aconchegante e gostoso, está na hora de contar tudo!!!

Eu não sei se vocês estavam lá no Parque das Águas, mas muita gente estava e gostou do que viu. E o Conselho Municipal do Jovem de Sorocaba mostrou todo o seu talento, o seu modo divertido e disposição em agitar a festa. Muitas fotos, vídeos (Adriano, personagem de Jefferson, e Mariane em destaque) do Programa Jeito Jovem podem ser vistos em: http://meujeitojovemsorocabano.blogspot.com/

E o E-Sorocaba também arregaçou as mangas e fez rolar seu segundo Bate-papo, que teve como tema DIVERSIDADE. Você sabe o que significa isso??? Se num sabe leia postagem anterior que está bem explicadinho. Mas para fazer vocês pensarem um pouco a gente rodou o filme “Shrek II”. Esse filme é bem conhecido, todo mundo adora. Assiste mais de uma vez e ri um monte. Mas colocar um filme desse? Se você perguntou isso é porque assim como muita gente (eu! das primeiras vezes que assisti), num viu nada de muito profundo pra ficar discutindo... Por isso a gente tem que assistir recebendo orientações. Daí você começa a perceber muita coisa.

FOTOS

Parte do público que assistia ao filme e participou do Bate-Papo em tenda fechada na Feira do Jovem.
Jefferson, nosso coordenador, direcionando o Bate-papo.

COMENTANDO O FILME

Então vamos fazer um exercício... se você ainda não assistiu e conseguiu pensar melhor, arrume em algum lugar e assista, é importante! Comece então a pensar em como as pessoas vistas como normais agem ao ver a diferença totalmente não desejada ali, escancarada na sua frente, de forma não esperada, num local longe de onde ela costuma de esconder, ser despejada... (Shrek anda no tapete vermelho na frente do povo do reino encantado, todos ficam horrorizados com a visão de um ogro)
E como a diferença se sente? Finge que está tudo bem? Morre de vontade de desaparecer, voltar para seu esconderijo? Querer mudar o que é (ogro vira príncipe – Michel Jackson enbranquece), se camuflar (agora tem os boatos de que muitos atores de Hollywood não se assumem gay por medo de ficarem desempregados)? Mas por que isso? Medo!!! Eles não são covardes, são vítimas. O ogro gostava de ser o que era até sentir medo, é claro, de perder sua amada, de fazê-la infeliz por não ser como a sociedade encantada estabelece. O preconceito muitas vezes faz com que queiramos deixar de ser como somos, mas ficamos frustrados ao querer mudar isso e não conseguirmos: deixar de ser homossexual, virar hetero (de entendida a mapô...). Somos vítimas de uma das nossas imensas características, rotulados como “laia” por ser honesto, amigo, humano, introvertido, sei lá o que mais de tantas qualidades, afugentamos pessoas porque elas nos vêem por possuirmos aquela característica indesejável. Deixamos de ser quem somos, somos apenas aquela característica, todo o resto morre, e não sabemos como pedir socorro. É raro, mas existe aquele que se vê diferente mas sabe fazer disso uma característica a se afirmar como seu jeito incomparável de ser feliz, mas quando descobre que pode ser igual se sente no país das maravilhas, tudo fica perfeito! O sistema garante que tudo fique bem: a fada madrinha resolve tudo, tudo bem, bem de acordo com o que colocam nas nossas cabeças que é normal e portanto assim deve ser! Fórmulas mágicas como o dinheiro dão um jeitinho em tudo, escondem, sujeitam pessoas... ai que nojo! A realidade não é assim, sufocar a riqueza da diferença, das coisas como elas são é matar o ser humano!
Todos esses comentários já são um começo! Reflita mais um pouco!
No nosso Bate-papo o pessoal até tocou no assunto “mercado de trabalho”, o quão difícil é lidar com a confusão do que queremos ser quando crecermos (a profissão) e a confusão de como nos assumirmos ou não para as pessoas a nossa condição (de diferente, passível de ser vítima de um preconceito camuflado e veroz) no momento em que estamos assumindo mais responsabilidades, dando um passo à entrada na vida adulta.

CONCLUSÃO DO FILME

O reino encantado representa a sociedade perfeita, onde todos são iguais, belos, perfeitos, “normais”. Um lugar que fica “tão, tão distante”, quase inacessível a pessoas que ficam na periferia do mundo perfeito. Essas são as pessoas diferentes que quando se mostram causam choque, afetam, deixam as pessoas pasmas. Apenas os considerados normais são pessoas vistosa como pesssoas boas.
Os diferentes sentem dessa forma desconfortáveis num mundo que não parecem ter algo a ver com eles. Então as pessoas preferem ficar no seu canto, na sua exclusão sobrevivente, ou ainda, preferem se camuflar, fingir o que não são para que todos aceitem e vivam entres esses. Se fingir que tudo dará certo não adianta, a sociedade faz de tudo para manter as coisas como são, através no caso da fada madrinha pois todos sonham em ser o que é venerado e aceito e há como satisfazer esse desejo. As pessoas sonham em ser iguais, se não entre o que é considerado normal, entre seus próprios semelhantes, mas quando outro diferente começa a figurar em sua vida, ocupando seus espaços, há rivalidade em vez de união (burro e gato) e se por acaso esta é percebida, como no filme, vemos que existe possibilidade de mudar o que está posto!
Se alguém deixa de ser inferior pela sua diferença, sofrerá se voltar ao que era pois mesmo que viva numa mentira, as aparências farão o papel de fazê-lo feliz!
Mas quando a diferença explode aos olhos e nas mãos da sociedade, esta pode acabar mostrando que todos voltam a ser da mesma espécie e vivem sob a mesma condição (animal ou humana, ou os dois). Dramas profundos se revelam como impulsionados do preconceito (quem mais tem medo do diferente, é porque foge de si mesmo – o rei esconde que é sapo, a fada madrinha tem medo que o filho solte a franga!). As pessoas podem enfim aprender que relacionar-se é ceder (é um ato de confiança para melhor convivência).
E então a união das diferenças pode sim aumentar as diferenças, mas também pode mostrar como a realidade é! Ela é diferente, não se pode escondê-la, marginalizá-la, pois ela existe e sempre existirá seja unida ou separada.
Bulling: tratar a pessoa pelo enfoque de sua diferença, reduzindo-a a pouca valia, humilhando-a. É um ato de violência.
A sociedade insiste em negar o diferente. O diferente só é aceito quando traz vantagem a esta, a seu proveito.

DISCUTINDO TUDO ISSO...

Enquanto alguns progridem, outros parecem regredir. Não adianta fingir que é um processo e por isso não devemos nos preocupar, lutar, fazer pressão. Querem que acreditemos nisso para que nada aconteça. Não se pode esperar que o futuro traga melhorias, pois estas devem ser desencadeadas hoje, elas começam agora, no presente. É preciso vontade, sem ela as coisas não acontecem, mas para dar certo é preciso pensar, vivenciar esta luta. E não precisa de revolução, não. Vivemos numa sociedade democrática, é o que nos mostra a Constituição. Podemos fiscalizar as ações e as políticas públicas, repensando, fazendo novas propostas através dos conselhos, em que qualquer um pode participar não só como conselheiro, mas como cidadão, com direito a voz e participação. Se você não sabe quais os tipos de Conselhos existentes na sua cidade, procure a prefeitura de seu município, eles têm o dever de informá-lo (inclusive do local, dia e horário das reuniões). Pode ir à conferências representando interesses coletivos. E uma coisa interessante... No site do MDS (Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome), o CREAS (Centro de Referência Especializada da Assistência Social) tem como um de seus públicos atendidos, pessoas vítimas de homofobia... E ninguém fala disso... de se ter um tipo de atendimento direcionada a essa população!
Não me venham dizer que o processo é lento, de aceitação, de participação da população, que devemos deixar que o tempo faça com que as pessoas tomem consciência... O tempo passa e as pessoas, sujeitos da história, nada fazem! Se alguém não agir, tudo continua do modo que está.
O E-Sorocaba está realizando todo um processo de reflexão, divulgando-se, encontrando preconceitos enraizadamente conservadores, está desencadeando um processo que precisa de pessoas para seguir cada vez mais em frente. Divulgar informações, mostrar que pessoas diferentes existem não é enfiar na cabeça das pessoas que elas também devam ser, é dar a oportunidade de conhecerem mais sobre sua própria realidade, é propiciar um momento de desmistificação da falsa verdade de que a diferença possa ser algo errado.
É importante entender que as pessoas não podem ser obrigadas a aceitar a diferença, mas sobretudo respeitá-la! As pessoas parecem ter medo de que a diferença se torne algo muito conhecido, têm medo de descobrirem a diferença em sua própria vida, de se descobrirem diferente... De serem negação, os rejeitados, de não saberem lidar com tudo isto. As inseguranças fazem parte da nossa vida, mas não podem ser motivo de violência contra alguém simplesmente porque nasceu além do “normal”.
Estou falando tanto de preconceito, mas posso ouvir muito, as pessoas dizerem que não têm preconceito. Será? E se seu filho, namorado, marido, pai, mãe, irmã, irmão, tia, tio que você mais admira ou ama dizer um dia pra você que é gay??? É hora de você pensar onde você guarda o seu preconceito! É muito fácil falar que não têm preconceito enquanto você não tem nada a ver com aquilo. Enquanto aquilo não te encomoda... Mas como você age quando descobre a diferença, ali na sua cara???
a) entra em pânico, e agora o que fazer, se sente infectado por uma doença grave e perigosa;
b) fica confuso, não entende, não sabe como agir daqui pra frente, tem dúvidas e incertezas;
c) acha normal, a sexualidade pode se expressar de diversas formas e se eu sou assim é porque eu sou ser humano.
Qual alternativa estaria mais próxima da sua reação, perante a realidade, falando sério, imaginando isso na sua vida, com a sua família, e aí???
Eu não vou filosofar mais... Acho que cada um tem a sua resposta para a sua vida, quem melhor do que você para achar a sua! Se leu bem o texto gigante atrás, vai saber o que cada alternativa significa. Isso não quer dizer que você está certo ou errado, isso quer dizer que você tem sentimentos diferentes de outras pessoas, o que é importante é pensar no que esses sentimentos e preconceitos sem reflexão podem levar você a fazer com os outros. Imagine como os outros, vítimas dessa realidade se sentem. Imagine uma pessoa que você ama sofrer por um preconceito seu, através da forma como você fala... Eu ouço cada coisa todo dia... É difícil fazer as pessoas entenderem que um gay não deixa de ser homem (ele mantêm o gênero que nasceu). As pessoas se impressionam mais com os trejeitos gays do que com outras características de outras pessoas, quando essas devem ser as menos preocupantes. Misturar tudo, generalizar é algo que ocorre a todo o momento, as pessoas tem uma visão heterossexual de sociedade que possui deformidades que denominam tudo o que não é normal. No pensamento, na fala, mesmo sem saber, as pessoas exibem essa lógica de sociedade (até eu, sem querer, já me peguei falando algo que não era legal sem pensar bem no que dizia, e às vezes é difícil fugir totalmente disso quando as pessoas começam a, conversar sem nada aparentemente muito profundo, a brincar, pegar pesado, a criticar fundo...). Não esqueçamos que o corpo pode falar muito mais do que nossas palavras e que nossas palavras possuem sentido e intencionalidade, significados que repercutem no íntimo das pessoas. Como queremos que as pessoas que vivem conosco, que muitas vezes se escondem, se sintam?

NÃO IMPORTA SE VOCÊ FAZ PARTE OU NÃO DO MOTIVO DA LUTA, VICENCIAR A LUTA CONTRA O PRECONCEITO É ENTENDER UM POUCO MAIS DE COMO AS PESSOAS SE SENTEM, COMO VIVEM, É OFERECER UMA OPORTUNIDADE A SI MESMO DE SE TORNAR UMA ALIADO, DE CONHECER MAIS SOBRE A NATUREZA HUMANA. ACREDITO QUE SE O RESTO DA SOCIEDADE NÃO SE INTERESSAR PELA CAUSA DOS OUTROS, PELO MOTIVO DE LUTA, VAI SER MUITO DIFÍCIL CONCRETIZAR A DERRUBADA DO PRECONCEITO. EM VEZ DE NOS SEGREGARMOS PARA DESCOBRIR QUEM É MAIS VÍTIMA, NOS UNEMOS PARA TERMOS MAIS FORÇA.

Mesmo que as coisas continuem sempre as mesmas, nunca quero perder meu poder de me indignar com absurdos de subjeição e exploração à raça humana. Não importa: gay, lésbica, transsexual, negro, branco, pardo, homem, mulher, criança, jovem, adolescente, idoso, adulto, pobre, rico... continuo falando da minha espécie e gênero, o homo sapiens. Me sinto parte de vocês, pois faço parte da natureza humana. Não vejo o porquê de não lutar por alguém humano como você, não suportando a violência, somos companheiros de luta. Lutar pela tua causa é mostrar a minha indgnação em ser considerado superior a ti por questões genéticas, de orientação sexual ou de renda, que te rotulam mesmo você tendo não escolhido nascer assim... Eu não sinto pena de você, eu não gosto de como esse sistema valoriza as pessoas pelo o que elas têm e não pelo o que elas são.
Minha dica de leitura: José Saramago escreve um livro que nos faz devorá-lo de tão revelador da condição humana, o “Ensaio sobre a Cegueira” que foi adaptado em filme com a direção de Fernando Meirelles. Só depois assistam o filme. O livro sempre é mais revelador!

Um abraço a todos.

Mariane Jacob (Secretária do E-Sorocaba, Secretária Executiva do Conselho Municipal do Jovem de Sorocaba e estudante de Serviço Social)

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